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Blog do Márcio | Márcio Pedro

Quem é Márcio Pedro? Contador e Pós-graduado em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria, é Gerente Administrativo de uma grande indústria e distribuidora de alimentos. Sempre atualizado em assuntos de economia, política, educação e literatura, escreve também microcontos
12/03/2018 23:40:03
Conto: A convenção das aves

O pinto do vovô

Era um pinto grande, agora com a cabeça pequena, mas ele teimava com qualquer um que era de raça. Ultimamente estava meio pra baixo, escondido e calado. Vovô como astuto homem da roça sabia que algo estava errado e procurou ajuda. Seu Zezinho curandeiro da região veio investigar o caso do pinto esmorecido. Homem muito solicitado, seu Zezinho já emendou direto com um bom dia! Qual o problema do seu pinto meu vovô? Explicada a situação, Zezinho pediu para tocar nele afirmando que o tato físico é o segredo de todo doutor. Depois de apalpa-lo pra lá e pra cá descobriu a causa do problema. Esse pinto tá com uma coriza infecciosa conhecida como gôgo, pois pelo que observo outras aves aqui também estão nessa situação. É o tempo que causa isso, mas o remédio que eu vou receitar resolverá o problema em três dias. Passados justamente o tempo que seu Zezinho profetizou, o pinto do vovô já estava saudável, andando mais duro, até ensaiando de galo no terreiro da fazenda, mas o canto ainda era fino. Chegou até a bater asas com a coruja da vovó.

A coruja da vovó.

Era uma fofura, tão empenada meu Deus! Era desconfiada, noturna, grande, não cheirava bem, e só não fedia mais porque a vovó dava um banho nela todo dia. Vovó morria de medo de ela morrer pela boca. Comia pau e pedra, assim tivesse oportunidade. Já não tinha a elasticidade da sua juventude, quando abria a boca, ou melhor, o bico, demorava um pouco mais de tempo para fechar completamente, estava cansada, exausta da vida que viveu, mas continuava valente, enfrentante fosse o tamanho que fosse o obstáculo. Vovó ainda lembrava do tempo em que ela ainda era só penugem, começando a mudar de cor e de tamanho, todos querendo ser donos dela. Passar a mão nela, aperta-la. Mas vovó era sabida, não permitia isso. Era seu tesouro. No terreiro da fazenda, em cima da mangueira, a ave mexia os olhos silenciosamente observando o pinto do vovô lá em baixo, querendo ser galo e batendo asas pra ela depois que o curandeiro lhe deu remédio para sua doença. Era o sinal. Vamos se comer agora piou ela, e num voo rasante as duas aves se abufelaram no terreiro da fazenda dos seus donos.

A briga do pinto do vovô com a coruja da vovó.

O terreiro da fazenda de cobriu de penas. Os dois, o pinto do vovô e a coruja da vovó, abraçados, ligados um no outro. Fricção de corpos, bicadinha de um, sucção da outra. Era uma briga feia, e só os dois, sem ninguém para separar. Um deles podia morrer, e o pinto do vovô já tinha pensado nessa possibilidade, mas batia sem pena, socava com força. A coruja lhe prendia, lhe apertava, mordia sua cabeça. O pinto sabendo que ela era mais forte não iria aguentar por muito tempo, iria se render, mas para não frustrar seu pai galo, como forma de desprezo, deu uma cusparada nela e só depois se rendeu ciscando. Não deu dessa vez para o pinto, a coruja mais velha e experiente deixou ele mole de uma pisa, mas também ficou muito maltratada, depenada, mas vitoriosa, acabou com ele. De repente num piscar de olhos ela olhou pra cima e viu algo lhe observando. Uma rola vistosa, maior que o pinto do vovô, cantarolando, lhe falou: sua briga agora é comigo coruja dos infernos.

A rola pega a briga do pinto com a coruja, pra ela.

A rola vistosa que apareceu nas árvores da fazenda do vovô era muito bonita, vistosa, enorme, parecia um pombo de tão grande. Acompanhou a briga do pinto com a coruja e pegou a responsabilidade de continuar depois que o pinto perdeu a batalha, mas depois de alguns segundos já queria voltar atrás só de pensar em se pegar com uma coruja suja e depenada, mas seu instinto de rola falava mais alto, vou come-la de dente, sussurrava uma voz no seu subconsciente. Ela tem que aprender a bater em alguém do seu tamanho. A coruja embaixo da mangueira só assuntava, e falava baixinho para ela mesmo: pode vir rola que estou te esperando. Minha vida toda é se defender e brigar com pássaros como você. Já estou acostumada, esse é o meu destino. Venha quente que estou fervendo! Venha disputar forças com essa velha ave de rapina. Você vai perder. A rola fez sinal que desceria da árvore para o chão de barro. Tinha que dar uma surra naquela coruja metida a dona do mundo. O terreiro da fazenda do vovô ficou em total silêncio. Iria começar uma disputa das grandes em alguns instantes.

Últimos momentos, antes da disputa da coruja da vovó com a rola desconhecida.

A notícia da disputa entre a coruja da vovó com a rola intrometida correu léguas, e a todo instante chegavam curiosos para presenciar o fim dessa disputa. Vinham de todos os cantos bacurau, baitaca, pica-pau, outras rolas, pombos e bombas, quero-quero, jacu, tziu, curica roxa, periquito, ganso, sebinho. O terreiro da fazenda do vovô parecia um viveiro de cores e cantos. O momento mais esperado estava para acontecer. Quem levaria a melhor? A coruja ou a rola? O empate era tudo o que ninguém queria. A codorna dava força a rola, chegou a lhe presentear com uma dúzia dos seus ovos, dizia que dava energia. Sem pestanejar o pardal apostou com o curió um quilo de alpiste que não dava quinze minutos para a coruja matar a rola. A aposta foi aceita e a tensão só aumentava. A andorinha se cagou de medo quando viu aquela rola grande pronta pra lutar. A coruja que já tinha certa idade se lambuzou do óleo das outras corujinhas para ficar escorregadia, era sua estratégia de guerra. Já a rola se preparava física e mentalmente, pois sabia que a coruja queria ganhar no tempo. Todos à postos, os galhos da mangueira pendiam de tantos pássaros pendurados. A disputa vai começar gente, atenção, gritou o peru.

O início do fim.

A briga começou e a coruja logo abriu suas asas e fechou, a rola sumiu dentro por alguns instantes, mas logo conseguiu tirar a cabeça de dentro. Era rápida. Mete o pau nela rola, gritou o curió, ansioso. O terreiro da fazenda era só poeira e pena. Sai de perto de mim periquito fedido, gritou o galo de campina que queria o galho onde assistia a briga só pra ele. Era passarinho cantando, pulando, se bicando, uma loucura, tudo para saber quem venceria. Dá uma chave de braço nela, coruja, mata essa rola enforcada, piou o canário belga e voou para um galho mais perto, estalando seu lindo canto. O pinto já recuperado, assistia a briga na sombra da mangueira, estava torcendo pra rola. Num instante um som ensurdecedor deixou todos surdos por alguns instantes. É tiro, gritou a sabiá já sem voz, um tiro, mais outro e mais outros…

Conta a lenda que naquele dia fatídico morreram 52 pássaros atingidos pelo chumbo do caçador. A rola e coruja se sentiram extremamente culpadas pelas mortes, pois o ego delas foi o motivo que fez reunir tantos pássaros em um só local. Como forma de recompensar por aquela matança, decidiram nunca mais brigar, e toda vez que se encontrassem, juraram que seria para celebrar o amor. Apesar que, atualmente algumas rolas e corujas fazem de conta que esqueceram do pacto, contudo a grande maioria ainda preza pelo que as aves decidiram naquela convenção.

Fim.

 Autor: Márcio Pedro

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